Wednesday, June 24, 2009

Da literatura no bar


Eu e Martha Medeiros em BH!
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É sempre a mesma coisa. Quando reencontro meus amigos e professores do mestrado no buteco, a conversa continua a mesma da sala de aula. Estávamos numa mesa de bar comemorando a defesa da minha dissertação de mestrado em estudos literários. Vindas do meu lado esquerdo, eu pescava conversas sobre assuntos gerais. Do lado direito, só ouvia literatura para cá, literatura para lá. Discussões literárias, autores literários, teóricos da literatura! O ruidinho literário da direita era emitido pelo recém mestre Pablo e o Prof. André que não cansam de "literatetear". Virei-me interrompendo:

-Gente, chega né? Vamos falar de amenidades, por favor.
- Tá bom. Amenidades.

[Silêncio-sepulcral-constrangedor do lado direito da mesa]

Bom, me conformei que pedi demais e deixei os dois para lá. Fui fofocar com minha amiga do lado esquerdo (do peito) que não via há seis meses. Pausa na fofoca (...) escuto o nome "Martha Medeiros" e o prof. André descendo a lenha. Para quem não sabe, sou fã da escritora gaúcha Martha Medeiros e o nome do meu blog é o mesmo de uma das crônicas dela. Voltei-me pro lado direito e entrei na discussão. Eu defendia a Martha, André replicava. No meio do furdunço, minha amiga da esquerda me interrompeu com um novo babado. Encerrados os comentários em torno do bafão, estiquei logo o ouvido esquerdo para o lado direito da mesa. A conversa já estava em Duras e mais uma penca de escritores franceses. Apelei:

-Ah, não! Literatura de novo???
- Não, Patrícia. Antes estávamos falando de Martha Medeiros. Agora é que começamos a falar de LI-TE-RA-TU-RA! - respondeu, triunfante, o professor André

Tive que engolir seco o vinho que já era seco. Não veio resposta. Tá bom, vai... a tirada dele foi genial.
Mas André, você me paga! Já estou elaborando uma piadinha aqui sobre o Camus.

Wednesday, June 10, 2009

Da dor que dói mais



Escrevi num post abaixo que a dor que dói mais é a da saudade, a dor de nunca mais saber de quem se ama... Dor emocional que também pode se manifestar no corpo. Mas ontem presenciei o oposto: uma dor física que irradiou na alma.

Acordei cedinho com minha irmã que gemia baixinho. Era cólica renal, decorrente de cálculo nos rins. Aquela dor que dizem ser pior que a de parto. Corri com ela para o hospital. Quel repetia "por favor, chega logo! Meu Deus, não tem posição que ajude a melhorar essa dor". E se revirava de um lado para o outro no táxi. Chegamos no Lifecenter, hospital conveniado de Belo Horizonte, e enquanto ela, pálida, se estirou no chão pedindo por favor para ser medicada, a recepcionista falava que, antes de encaminhá-la para a enfermaria, eu teria que preencher um cadastro.

-Não "sente" a dor dela? Deixa eu ir com ela até a enfermaria? Volto aqui e preencho depois - pedi
-Tem que preencher a ficha primeiro. Posso chamar uma enfermeira para ir com ela.
-Então chama, ué!

A enfermeira não aparecia. E minha irmã continuava no chão. Até que, sem querer, uma mocinha de branco apareceu. Gritei: "Enfermeira, ajuda a minha irmã aqui". E foram-se as duas escada abaixo. Eu continuei no balcão com a caneta na mão preenchendo a merda da ficha, a cabeça pensando mil palavrões e o coração doendo. Continuei:

- É um absurdo como vocês lidam com uma pessoa que visivelmente está sentindo tanta dor.
- É o protocolo... - falou a recepcionista virando as costas.

Dez minutos depois, cheguei na enfermaria e minha irmã ainda gemia de dor. Não tinha sido medicada ainda! Até que o médico apareceu. Apertou daqui, apertou dali e foi fazer a prescrição do analgésico: o nosso familiar buscopan. Ele ainda escrevia cinco minutos depois. Até que minha irmã perguntou: "Cadê, cadê o remédio?"

-Dr. não dá para agilizar o medicamento? Já tem 30 minutos que estamos aqui... - eu disse
- Estou preenchendo - disse-me olhando com a sobrancelha levantada e apontando para o papel.

Depois de feita, a enfermeira levou a receita até a farmácia, o que demorou mais de dez minutos. Depois ela preparou a seringa. Mais cinco minutos. Ou seja, desde que chegamos no hospital foram mais de 45 minutos para que fosse finalmente injetado buscopan na veia da minha irmã. Imaginem o que são 45 minutos para uma pessoa com cólica renal...! Menos de um minuto depois da droga ser injetada no sangue, ela não sentia mais dor.

E eu sentia a indeferença no rosto, no andar, na fala de cada um que nos rodeava. A dor, para eles, é sim algo corriqueiro. Só que acaba parecendo mercadoria barata mal paga pelos convênios. Voltei para casa meio anestesiada. Sozinha no quarto, comecei a pensar em tudo que ocorreu naquela manhã. Espontaneamente, explodi num choro convulsivo. Soluçava de raiva deles, de pena da minha irmã, de desilusão... Mais uma vez lidei com gente que não sabe acolher. E percebi que a dor que dói mais é a dor decorrente da banalização da dor que dói nos outros. Eu vi, de perto, a desumanização da saúde.

IMPORTANTE:

P.S- Esse texto é baseado no que eu presenciei. Não estou generalizando em relação à classe médica. Como a sociedade em geral, entre os médicos, também têm de tudo... Entendo como os convênios banalizam o trabalho desses profissionais ao pagarem uma quantia que não vale o trabalho que executam. Como diz um amigo meu médico: "Tem gente que gasta 300 reais no salão e ainda reclama do quanto paga numa consulta. Você tem noção do quanto a gente trabalha? E da importância do nosso trabalho?". Tenho sim, meus pais são (bons) médicos. Mas nada disso justifica a postura dos funcionários do Lifecenter. O sistema de saúde tá errado. Mas em quem tá doendo, não é justo fazerem doer mais.

Wednesday, June 03, 2009

Da(s) Menina(s)*



Lascívia estava com o coração doendo. Pensava sobre suas últimas relações e convenceu-se de que os homens da sua idade não se apaixonam mais. Será que os homens de 35 pensavam diferente daqueles que, lá pelos 26, lhe faziam juras de amor eterno? Ou seria a fluidez das relações na pós-modernidade? Apelou, primeiro, para o amor líquido: champanhe para amainar a dor. Uísque para deixar momentaneamente o mundo mais bonito.

Lascívia, álcool na veia e olhos de ressaca, desabafava com seu fiel amigo Charlinho numa mesa de bar. Copos e camel para exalar a fumacenta angústia:

- Sabe que às vezes penso que se relacionar com mulher seria mais fácil...
- Por que você não tenta?, perguntou já com os olhinhos brilhando, imaginando uma cena imprópria para aqui ser descrita. Muito imprópria, porque afinal vinha do imaginário do Charlinho.

E Charlinho levou Lascívia cambaleante para uma boate GLS.

- Hum... muito novinha essa. Essa outra muito masculina... Hum, tá foda! - repetia Charlinho para si enquanto procurava uma candidata para a amiga.
Até que a montanha chegou a Maomé. Atraída por Lascívia, ela veio de shortinho e rasteirinha. Brincos brincando de se enroscar no cabelo grande. Um sorriso largo enfeitava o rosto. A conversa e o jeito a deixavam mais bonita. Volúpia era seu nome.

As meninas conversaram por horas e horas, enquanto Charlinho olhava para Lascívia como quem diz: "Beija logo, porra. São cinco da manhã". E Lascívia retornava também com os olhos: "Calma, é estranho". Até que para amenizar o estranhamento, Volúpia vedou os olhos de Lascívia com as mãos e beijou-a na boca.

Lascívia pensava no quanto Volúpia beijava bem ao mesmo tempo em que tentava se acostumar com aquela cinturinha. As mãos de Lascívia não se moviam, ficaram presas, estáticas naquela cintura onde batiam os cabelos de Volúpia. Não conseguiu deixar de estranhar aquele corpo delgado e tão feminino. Deu mais um selinho e saiu correndo, deixando para trás só o endereço do email.
As duas trocaram emails e telefones. Mas ambas souberam-se incompatíveis. Lascívia confessou que testosterona lhe faz falta. Volúpia disse que cansou de se envolver com heteros de espírito aventureiro. Decidiram ser amigas. Mas às vezes se olham sabendo que Volúpia encontrou tudo que ela queria numa mulher. E Lascívia achou em Volúpia tudo que falta num homem. E brincando, não cansam de cantar: "Eduardo e Mônica eram nada parecidos..."

*Inspirado no filme Vicky Cristina Barcelona



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