Tuesday, June 10, 2008

Do mundo de um certo Capitão Rodrigo

Diálogo entre o Pe. Lara e o Capitão Rodrigo. A história trata da formação do estado do Rio Grande do Sul e passa-se no século XIX.

-Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? - Perguntou o padre.
-Se eu fosse o dono do mundo, fazia algumas mudanças...
-Por exemplo... - pediu o padre
-Acabava com essa história de trabalhar...
-Sim, e depois?
-Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
-E depois?
-Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
-Dividia? Como? Pra quê?
-Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada negro, pra cada índio.
-Não vá me dizer que ia libertar os escravos...
-E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.
-Vosmecê é das Arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais?
-Ah, já ia m'esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.
-E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?
-Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...
-Quê mais?
-Acabava também com a velhice.
-Acabava?
-Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
-Nem morria?
-Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.
-Vosmecê não ia também acabar com as guerras?
-Bom... acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando fica tudo muito enjoado.
-Ia ser um mundo bem esquisito...
-Mas não mais esquisito que esse nosso, padre.
- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
-Mas hai muita coisa torta aí.
-Que há, há...
-Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil...
-E se dois homens desejassem a mesma mulher?
-Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola?
-Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras, e para variar, uma peleia... Não é isso?
-Mais ou menos...

In: O Continente, Érico Veríssimo.

Wednesday, June 04, 2008

Do cheiro de Santa Maria

No Ponto do Cinema onde os mestrandos das Letras batem ponto quase todo final de tarde, o sonzinho da música ao vivo dedilhou "Sampa". Logo, eu e Denize, outra forasteira, elaboramos, assim, na hora, outra letra em cima da de Caetano:
"Alguma coisa acontece no meu coração que só quando eu cruzo a Floriano rumo ao calçadão". Risadas e risadas, relembramos o dia em que ela, Denize, voltou da casa dos pais no Paraná. Um dia de chuva, frio, céu cinza, nos encontramos na Alberto Pasqualine, também conhecida como 24hrs, para almoçar no Português. Ela chegou linda, com seu casaco nem 3/4 nem 7/8. Mas os olhos verdes sentiam o peso da nuvem negra que pendia o seu semblante. Na saída, olhando para o rosto dela, fisionomia nauseada, perguntei:
- O que houve, guria?
- O cheiro dessa cidade! Um cheiro sólido! Que me sufoca!, poetizou saindo do restaurante com os pés firmes em seu scarpin preto de bolinhas brancas, pisoteando a 24hrs.
É, Caetano... Narciso acha feio o que não é espelho.
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